Amor Cego

 

Amor cego - Conversas com Jean-Luc Godard

(Alemanhã, 2001, 24 min)

Voz feminina (em off) [de excerto fílmico]: Nada se sabe, apenas se afirma haver 115 mortos. Isso é como em uma foto, sempre volta a me fascinar. Quando se vê, por exemplo, a foto de alguém com uma assinatura ao final...

[fade-in do excerto fílmico: Jean Paul Belmondo (voz masculina Ferdinand) ao volante de um carro em movimento, um cigarro na boca, seu reflexo em P/B abaixo e de lado, ele ocasionalmente move sua cabeça para o lado do carona, escutando a voz feminina (Marianne)]

Voz feminina: O senhor sabe o que eu acho tão triste? A vida sempre é diferente do que imaginamos. Eu a desejo como em um romance: clara, ordenada e lógica, mas ela jamais é desse jeito.

VOZ MASCULINA (em off): Porém, ela o é muito mais vezes do que se costuma pressupor.

Legenda:
Do INTERIOR de um ser humano idoso, experiente, surge uma criança? / O que são mapas do amor? / O QUE É O AMOR CEGO? / O que a confiança e o amor têm a ver um com o outro? / Jean-Luc Godard, interrogado por Alexander Kluge por ocasião do filme mais recente de Godard: ÉLOGE DE L’AMOUR (Ode ao amor)

Kluge: O que o senhor entenderia por “amor cego”?

[na imagem à direita em fade-in: Dr. Ulrike Sprenger, que traduz as perguntas e respostas / câmera novamente sobre Jean-Luc Godard]

Godard: Na França isto é uma expressão. Diz-se “o amor torna cego“, isto é, ama-se sem colocar questões, e na históira do cinema eu contei da nouvelle vague, que amamos tanto o cinema antes de tê-lo conhecido. Os filmes dos quais falamos não se encontravam para locação, não se podia vê-los. Também o Encourçado Potemkin era proibido, não podia ser visto, ou seja, amávamos esses filmes cegamente.

Kluge: Então lhe mostro uma imagem...

[câmera sobre Jean-Luc Godard e Ulrike Sprenger, ela está sentada ao lado dele com um livro aberto e durante a tradução mostra a imagem descrita]

Kluge: ... O senhor vê um motorista de caminhão e ele é cego há um ano. Ele não quer ser desempregado, por isso ele dirige pelas ruas e a criança o aconselha.

[fade-in da imagem P/B de um homem jovem atrás do volante de um carro, muito próximo a ele o seu filho sobre os seguintes diálogos]

Inserir foto tamanho passaporte: retrato do motorista cego CRÔNICA DOS SENTIMENTOS, volume 2, página

Godard: Esta é uma bela foto. É necessário fazer um filme a seu respeito.

Kluge: Por ser uma estória de amor?

Godard: Dirigir para a direita, dirigir para a esquerda. Foi feito um filme a respeito disso?

Kluge: Não. Mas isso faz parte do guia de filmes imaginário.

Godard: Quem cavalga tão tarde pela noite e pelo vento é o pai com sua criança. Poderia-se filmar isso como um poema de Goethe.


...

 

*Tradução Stefan Klein