Exposição

O Projeto Revoluções é uma realização do Instituto de Tecnologia Social - ITS BRASIL, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, do SESC-SP e da Boitempo Editorial.

 

de 21/05 a 03/07

 

Revoluções

A exposição Revoluções, com curadoria de Henrique P. Xavier,  está organizada sobre três eixos principais. O primeiro é a mostra de imagens do livro Revoluções, organizado por Michael Löwy e lançado no Brasil em 2009 pela Boitempo Editorial. Com aproximadamente 400 fotografias em preto-e-branco, a obra documenta importantes movimentos revolucionários, desde a Comuna de Paris (1871) até, mais recentemente, a Revolução Cubana (1953-67), além de movimentos sociais que, segundo Löwy, seriam portadores não de “revoluções”, mas de um “espírito revolucionário” (como os Sem Terra, registrados por Sebastião Salgado). A edição de Revoluções faz-se notar não apenas pela riqueza visual, mas, principalmente, pela construção de uma íntima relação entre imagem, narração e história, onde os comentários escritos vão, aos poucos, expondo os personagens no interior das fotos.

O segundo eixo da exposição é a exibição de quatro filmes, de diretores cuja obra é marcada por um agudo olhar político e pelo questionamento do papel da imagem na sociedade contemporânea. Um deles é o curta-metragem Eu Vos Saúdo, Sarajevo (1993), uma pequena obra-prima de Jean-Luc Godard que, a partir de fragmentos de uma única fotografia retirada da guerra da Bósnia, explicita a potência e o peso que uma imagem é capaz de nos revelar. O outro é o ambicioso Notícias de Antiguidades Ideológicas: Marx, Eisenstein, o Capital(2008), de Alexander Kluge. Em nove horas e meia, ele retoma o projeto do cineasta Sergei Eisenstein de filmar O Capital, de Karl Marx, a partir da estrutura de Ulysses, de James Joyce. A Versátil Home Vídeo fará, na ocasião, o lançamento de uma caixa de DVDs do filme, inédito no Brasil. Além disto, uma equipe coodenada por Henrique P. Xavier está recriando, em português, as quase 1.000 cartelas do filme de Alexander Kluge.

Os outros dois filme são O velho lugar e A origem do séc. XXI, ambos de Jean-Luc Godard e, o primeiro, inédito no Brasil.

O terceiro é uma composição musical coordenada por Willy Corrêa de Oliveira e executada por Maurício De Bonis a partir das cações revolucionárias do séc. XX.

Local: andar térreo do SESC-Pinheiros - Rua Paes Leme, 195. São Paulo - SP

Mais informaçõs:revolucoes@revolucoes.org.br


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Revoluções: história, fotografia, cinema e Karl Marx

por Henrique P. Xavier

                                                                                                                    ... se tornava perigoso,

                                                                                                                   não de contar histórias,

                                                                                                                     mas de ver a História.

                                                                                                                                                  JLG

 

 

Confundir e aproximar o presente e tempos passados, fotografias históricas e cinema contemporâneo.

Uma exposição em que imagens de algo longínquo são postas ao lado de imagens de algo muito próximo a nós. Contudo, os contrastes são mais e menos que aparentes: uma fotografia de 1871 das barricadas da Comuna de Paris e uma adaptação do Capital de Marx pelo cinema experimental contemporâneo montam uma única imagem, muito mais do que nos saltam aos olhos. Eis a exposição: um grande combate revolucionário entre imagens e tempo.

Muito foi escrito e falado acerca das revoluções marxistas do século XX, há enormes bibliotecas sobre os seus caminhos e descaminhos, sobre suas utopias e barbáries. Mas diferente de todos estes textos e discursos, a exposição Revoluções busca, através de imagens históricas, dizer-nos alguma coisa que não quisemos escutar. Imagens da insurgência das revoluções, o ápice instável da transformação de processos históricos no fervor e mesmo violência de um estado de exceção que se instaura na tentativa de refrear misérias e opressões desmedidas.

A exposição busca um momento de pausa para ver estas imagens históricas que, por um lado, estão ampliadas em escala corporal (120 x 180 cm), visando um corpo a corpo com imagens revolucionárias. Por outro, o espectador também encontra sequências de fotografias em tamanhos menores, a formar conjuntos. Por exemplo, há um conjunto de imagens de barricadas, atualizadas através dos tempos. Outra sequência apresenta as imagens reais dos marinheiros e do lendário Encouraçado Potenkin. Outra apresenta as atuações de militantes femininas. Assim, salta-se de revolução em revolução: Rússia, Hungria, Alemanha, México, China, Cuba... em uma tarefa de explodir a linha do tempo, e não contar histórias, mas dar a ver a História.

Olhares cheios de vida e esperança momentânea, a comoção das massas, o conflito, as vitórias, os mortos nos processos revolucionários do século XX. Como no livro Revoluções, organizado por Michael Löwy (e lançado no Brasil em 2009 pela Boitempo Editorial), de onde as fotografias são extraídas, a exposição privilegia imagens menos conhecidas das revoluções e de suas personalidades, embora Che Guevara, Rosa Luxemburgo e outros nomes estejam representados.

Além disto, as fotos e o espectador são envolvidos por uma composição musical especialmente criada para o evento e realizada a partir dos cantos revolucionários de várias época e lugares. Mais imagem sobre imagem, uma vez que, no fundo, a música é uma imagem acústica. Também há palavras, não as legendas tradicionais, mas poemas revolucionários, imagens literárias, uma vez que não apenas com o fuzil se fez o revolucionário, mas com a pena e a palavra.      

Um mal-entendido ou malvisto, a exposição de fotos históricas demanda que o espectador veja os documentos históricos ao lado de uma peculiar obra de arte contemporânea, um pequeno filme de Jean-Luc Godard. Mas é preciso ser prudente ao encarar este mal-entendido entre registro histórico e artístico. Uma vez que o filme exibido é rodado exatamente a partir de uma foto que atesta um irreparável crime contra a humanidade e nos demanda a busca de uma saída.

Marcado por um contundente olhar político, o filme detém-se na potência e peso de uma única imagem que, por si mesma, visa diretamente encarar o mundo. Eis uma primeira aproximação ao curta-metragem Eu Vos Saúdo, Sarajevo (1993), uma das realizações mais precisas e agudas de Godard. O curta-metragem é realizado a partir da montagem de fragmentos de uma única fotografia, retirada da guerra da Bósnia, com a qual Godard nos demonstra como uma única imagem é capaz de nos revelar a precariedade, a massificação e os horrores de nossa cultura. Porém, para a regra desta cultura de televisores, publicidades, cigarros e genocídios, há, para Godard, a exceção de uma segunda imagem e de uma outra forma de viver, uma vida como em uma exceção revolucionária.

Na duração diametralmente contrária ao curta-metragem de dois minutos, temos a instalação de um filme com nove horas e meia; contudo, ambos, na exposição, têm a mesma dignidade e, neste espaço comum, a despeito da enorme diferença de durações, atraem-se como em um Amor cego. Alexander Kluge é o segundo cineasta de nossa exibição, do qual apresentamos o seu monumental Notícias de Antiguidades Ideológicas: Marx, Eisenstein, o Capital (2008), em uma instalação especialmente desenvolvida para a exposição, em que o filme está a rodar ininterruptamente.

Ainda pouco conhecido no Brasil, o veterano, Kluge, que em sua juventude fora próximo de Theodor Adorno e Fritz Lang, é, sem dúvida, um dos maiores cineastas, escritores e intelectuais do cenário alemão. Em nove horas e meia de suas novidades ideológicas, ele produz uma montagem de tempos e histórias: o Capital de Karl Marx é sobreposto ao Ulysses de James Joyce que é sobreposto ao cinema de Eisenstein, que por fim é sobreposto ao cinema de Alexander Kluge. O alemão retoma o projeto do cineasta russo de filmar O Capital, de Karl Marx, a partir da estrutura do romance do irlandês, Joyce. Uma montagem de tempos e artes para criticar, ressignificar e trazer à tona novidades atualíssimas de uma antiguidade ideológica como o Capital.

Um tanto como uma televisão ao contrário, o filme de Alexander Kluge é um grande show de variedades sobre algo que nunca está nos shows de variedades: Marx, Walter Benjamin, Rosa Luxemburgo, Bertold Brecht, Luigi Nono, canções de uma Escavadeira, Encouraçado Potenkin do cinema, entrevistas com militantes, intelectuais, artistas e comediantes, animações digitais, inúmeras cartelas, como as do cinema mudo, transpostas em poesia visual e, por fim, com a máxima seriedade, o Capital é apresentado em uma visão nada ortodoxa e mesmo cômica.

Na ocasião, A Versátil Home Vídeo fará o lançamento de uma caixa de DVDs do filme, praticamente inédito no Brasil. Talvez o filme ainda seja uma das possíveis salvações de um imaginário marxista, reinventado em uma miríade de histórias, falas e imagens que atuam na contramão daquilo que nos é bombardeado diariamente.

 

* Além de Je vous salue, Sarajevo e Notícias da antiguitidade ideológica: Eiseinstein, Marx, O capital ; serão exibidos na exposição os curtas O velho lugar e A origem do séc. XXI de Jean-Luc Godard. O primeiro, totalmente inédito no Brasil.