Frei Betto por Ivo Lesbaupin

Frei Betto

Por Ivo Lesbaupin*

Carlos Alberto Libânio Christo, o frei Betto, nasceu em 25 de agosto de 1944 em Belo Horizonte. É membro de uma família de oito irmãos e irmãs, filho de uma mãe dona de casa e cozinheira de mão cheia – Maria Stella Libânio Christo, futura autora de livros culinários – e de um pai advogado e juiz. Herdou de sua mãe o talento culinário, e de seu pai a preocupação com a justiça.

Começou sua militância e aproximação com a Igreja Católica por meio da JEC – Juventude Estudantil Católica – na qual se integra aos 15 anos levado por frei Mateus Rocha, dominicano. Em pouco tempo, torna-se liderança do movimento estudantil na capital mineira. Em 1961, aos 17 anos, muda-se para o Rio de Janeiro, para compor a equipe nacional da JEC. Passa a morar no apartamento de Laranjeiras, uma “república” partilhada por quadros nacionais da JUC (Juventude Universitária Católica) e da JEC.

Neste período, convive com bispos com marcada preocupação social, como D. Hélder Câmara, ao mesmo tempo em que defronta-se, pela primeira vez, com autoridades hierárquicas reticentes à ascensão dos leigos na Igreja, como D. Vicente Scherer. Em 1964, poucos meses após o golpe militar, junto com seus companheiros de JEC e de JUC, passa alguns dias na prisão. Ainda neste ano, começa a estudar jornalismo na Universidade do Brasil. Menos de um ano depois, entra no noviciado da Ordem dos Dominicanos.

Em 1966, segue para São Paulo, no Convento das Perdizes, onde começa a estudar filosofia. No ano seguinte, integra um dos dois grupos de estudantes dominicanos que passam a morar em pequenas comunidades fora do convento. Frei Betto é então convidado para assistente de direção da peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, dirigida por José Celso Martinês Correa e, pouco tempo depois, começa a trabalhar no jornal Folha da Tarde, como jornalista.

Algum tempo depois, é contatado junto a Frei Oswaldo Rezendo, por Carlos Marighella, que os pede para montar um grupo de apoio constituído por frades dominicanos e sua rede de conventos. O grupo começar a atuar em 1968, escondendo militantes perseguidos pela ditadura e ajudando-os a sair do país. Tomando conhecimento de que era procurado pela repressão em São Paulo, Betto muda-se para São Leopoldo (RS), onde passa a estudar com os jesuítas. Em novembro de 1969, poucos dias após a prisão dos frades dominicanos em São Paulo, e da morte de Marighella, é preso no Rio Grande do Sul e levado para o DOPS de São Paulo, onde já estavam os demais frades. Um mês depois, o grupo é transferido para o Presídio Tiradentes.

Betto passa a conviver com dirigentes da ALN, da Ala Vermelha do PCdoB, do PCBR, com antigos quadros do Partido Comunista, entre os quais Caio Prado Júnior e Jacob Gorender. Datam do período 1969-70 as Cartas da Prisão, publicadas originalmente na Itália. Trata-se do primeiro livro daquele que se tornará, por profissão e vocação, escritor – tendo publicado mais de cinquenta livros de vários gêneros, muitos deles traduzidos em várias línguas.

Ao sair da prisão quatro anos depois, vai para Vitória, onde ajuda D. Luís Fernandes a organizar as comunidades de base, morando num bairro popular e numa favela. Em 1979, muda-se para São Paulo, onde passa a organizar a Pastoral Operária na Diocese de Santo André, dirigida na ocasião por D. Cláudio Hummes. É por essa época que entra em contato com Lula, líder sindical do ABC, de quem se tornará amigo.

Embora nunca tenha se filiado ao PT, é um dos apoiadores entusiastas do partido. Com a eleição de Lula para a Presidência da República, em 2002, é convidado por ele para assessorar o Programa Fome Zero. Dedica-se de corpo e alma à organização popular ligada a este programa, de onde nasce a Rede de Educação Cidadã, difundida em todo o país. Em novembro de 2004, descontente com os rumos do governo, que não cumpriu a promessa de mudar a política econômica neoliberal de FHC, Betto deixa o governo.

Entre suas obras mais conhecidas estão Batismo de Sangue, de 1982, sobre os dominicanos e a morte de Marighella, transformado em filme por Helvécio Ratton, em 2006. A obra tem um capítulo especial dedicado a frei Tito, barbaramente torturado na OBAN, e morto em 1974. Em 1985, depois de várias visitas a Cuba, escreve Fidel e a religião, fruto de muitas horas de entrevista. Recentemente, publicou um livro de reflexão sobre o poder político, A Mosca azul, e, em seguida, um diário dos dois anos em que participou do governo Lula, Calendário do poder.

*A primeira versão deste texto foi publicada no livro "20 anos da Medalha Chico Mendes de Resistência. Memórias e Lutas", organizado por Cecília Coimbra, Irene Bulcão e Rubim Leão de Aquino e publicado pelo Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, em 2009.