1968 - Cinema e revolução 10 - Pasolini – profecias corsárias

1968 - Cinema e revolução 10 - Pasolini – profecias corsárias

Pasolini nutria amor e ódio pela juventude de 68. Edipiano às avessas, coloca-se como o pai que condena o filho por seus próprios erros. Trabalha em textos e filmes um provocante diálogo de gerações, colocando em questão a real ruptura de valores da nova geração. Antiquado ou visionário, Pasolini via na morte da Itália tradicional o fim de qualquer possibilidade de redenção. A Itália moderna mata as diferenças, os dialetos e a espontaneidade popular, em nome de uma cultura “universal”, baseada no consumo desenfreado. Em vários de seus filmes havia uma defesa e adoração do jovem camponês e operário que, ao seu entender, ainda escaparia deste domínio burguês. Lamenta mais tarde a morte deste proletário idealizado.
Pasolini nomeia a nova geração de Jovens infelizes, condenados pelos crimes dos pais. Porém, tal qual uma tragédia grega,  isso não os faz menos culpados. Pasolini se coloca enquanto “pai ideal, pai histórico”, integrante da geração “responsável primeiro pelo fascismo, depois por um regime clerical-fascista, falsamente democrático, e que, por último, aceitou a nova forma de poder, o poder do consumo, última das ruínas, ruína das ruínas.”(26) Ao entender que o pior mal que poderia haver era a pobreza, sua geração matara tudo o que escapava do domínio burguês, criando uma geração indiferenciada, “quase todos uns monstros.” A descrição que faz dos jovens exibe uma aversão desmedida: “Seu aspecto é quase aterrorizante, enfadonhamente infeliz. Horríveis pelagens, cabeleiras caricaturais, carnações pálidas, olhos embaciados. São máscaras de alguma iniciação barbaresca. Ou então máscaras de uma integração subserviente e inconsciente que não provoca piedade.” Para Pasolini a negação apresentada por esses jovens já  continha sua integração. Negavam o todo por ser parte, e, ao não se verem como parte, reificavam o todo. Protestavam com a anuência dos pais, que reprovavam aquele ato “condenável” de rebeldia juvenil, mas que não iriam repreendê-los como fariam com operários, já que eram seus filhos. Pasolini, em um ato de provocação, afirma identificar-se com a polícia que entra em conflito com os estudantes, posto esta ser composta de proletários frente a jovens burgueses que viviam uma liberdade presenteada pelas próprias forças que supunham combater.(27)
Membro controverso do PC italiano, levando sua militância em constante conflito, isola-se também da nova geração, que “pretendia negá-lo” enquanto pai, confinando ele e seu tempo a um gueto. Acabam presos no lado oposto “agarrados ao arame farpado do gueto, olhando para nós de maneira apesar de tudo humana, como desesperados mendigos que pedem algo só com o olhar, por não terem coragem, nem talvez capacidade, de falar.”
No filme A Terra vista da Lua (28), vemos um pai grotesco, interpretado pelo velho mestre da comédia popular italiana Totó, e seu filho, interpretado por Ninetto Davoli, ator que está presente em grande parte dos filmes de Pasolini. A representação do filho é também grotesca, americanizada, cabelos coloridos e aspecto estúpido. Duas representações do proletariado com aspirações burguesas, de valores duvidosos e total falta de identidade, pai e filho se complementam. Se visualmente destoam, espiritualmente são fruto de uma mesma alienação. O filme inicia-se no enterro da mãe-esposa, representada por uma caricata escultura no túmulo, munida com um rolo de macarrão nas mãos. Após o enterro, pai e filho partem em busca da mulher ideal: aquela que poderia lavar, passar, e fazer uma boa comida. Encontram-na, mas por um golpe da fortuna ela morre. Surpreendentemente reaparece e, após um primeiro momento de susto, é aceita por pai e filho, posto estar disposta a retomar suas tarefas domésticas. Pasolini conclui que, para esses tipos sociais, dá na mesma “estar vivo ou morto”. Em outro curta, realizado em 68, A sequência da flor de papel (29),  Ninetto faz o papel de um jovem típico da nova geração, que caminha abobadamente pelas ruas enquanto o mundo explode em caos. Alusão clara ao movimento de 68, é uma crítica irônica ao que Pasolini considerava alienação burguesa das reais questões do mundo.
Ao pregar a negação do mundo de seus pais, os jovens de 68 o reificavam, pois pouco deixavam em seu lugar. Na construção de um antipoder ficara um vácuo, a ser reocupado pelo poder, que se apropriava do ideal libertário da geração 68, tornando-o inofensivo consumo, fechado em si mesmo.  Ao viver intensamente o presente no rompimento radical com o passado, eles caminhavam para um beco sem saída. Tal qual Fausto, usufruíam da juventude concedida pelo demônio, pagando com sua alma o preço futuro.

(Este é o penúltimo de uma série de 11 textos que integram o artigo 1968 - Cinema e revolução).

por Thiago Brandimarte Mendonça

26 in PASOLINI, Pier Paolo. Os jovens infelizes – antologia de ensaios corsários. São Paulo, Editora Brasiliense, 1990.
27 No livro Pier Paolo Pasolini de Maria Bethania Amoroso (citado na bibliografia final), encontramos um longa poema de Pasolini, onde este insulta os jovens de 68 e afirma sua simpatia pelos policiais-proletários. As posições de Pasolini renderam-lhe ódios da esquerda e da direita – que acabará por assassiná-lo anos mais tarde, em um complô apresentado no filme Pasolini, um delito italiano de Marco Tulio Giordana (1995). Na época incriminou-se um jovem garoto de programa pelo assassinato. Somente nos anos 90 o inquérito foi reaberto. Até hoje ninguém foi condenado.
28 Episódio do filme As bruxas, de 1967.
29 Episódio do filme Amor e raiva de 1968.

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